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Edição nº 264
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quarta-feira, 12 de Julho de 2006 Sade, o malditoRelacionada (e confundida) geralmente com a noção de perversão e prazer através do sofrimento, a subversiva obra do Marquês de Sade tem muito mais a revelar.
As obras do Marquês foram proibidas ou malditas por mais de cem anos. Ainda que tenha vivido num período revolucionário (a Revolução Francesa), Sade foi perseguido, proibido e encarcerado durante a maior parte de sua vida, por todos os regimes sob os quais viveu. Nascido na França em 1740, viveu 74 anos, 27 deles em prisões e sanatórios. Morreu em um destes, em 1814, sem ver publicado e pensando haver perdido para sempre o manuscrito daquela que considerava ser sua mais importante obra: "Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem". Apenas no século XX, as obras do Marquês começaram a ser resgatadas, principalmente a partir da paixão dos artistas surrealistas pelo escritor. Mas, mesmo assim, publicar Sade era motivo para ações judiciais, como ocorreu com o editor Jean-Jacques Pauvert, processado e multado em 1956 por divulgar a obra sadiana. Somente nos anos 60, principalmente após o "Maio de 68", a obra do Marquês começou a ser mais difundida. A moral individualista e espontaneísta da época, contra os tabus e preconceitos, deu maior espaço para Sade. Vale recordar que esse individualismo cabia dentro de todas as normas da burguesia. Ressurge o Marquês Hoje, Sade é revisitado e várias obras suas são republicadas, como "Os crimes do amor" (L&PM), "A filosofia na alcova", "O diálogo entre um padre e um moribundo" e o mais recente "Os 120 dias de Sodoma" (Iluminuras). Soma-se a eles o recente lançamento de Eliane Robert Moraes, pela mesma editora, de "Lições de Sade: ensaios sobre a imaginação libertina". Eliane tece interpretações das principais obras do Marquês, desvenda o contexto da época, o surgimento de organizações secretas libertinas e as influências do Marquês, principalmente sobre os surrealistas. Também está em cartaz em São Paulo, no Espaço Satyros II, a adaptação teatral de "Os 120 dias de Sodoma", do diretor Rodolfo Garcia Vázquez. Nela, a homérica orgia sai do Castelo de Sillig do texto original, para se instalar no Brasil atual, com uma dura crítica aos recentes escândalos de corrupção. A exemplo do original, sem pudores, a peça aponta o dedo para as elites, a Igreja, os parlamentares, o Judiciário e o governo. Critica o falso riso, a mercantilização do carnaval e a falsa democracia burguesa. "A democracia é a melhor máscara para esconder o prazer absoluto da diferença. Enquanto os miseráveis pensam que são iguais a nós, mais podemos abusar do poder que o Estado nos propicia. Eles só têm o direito de votar, e esse voto é sempre em algum de nós. Portanto, tudo fica como nos interessa. O melhor de tudo é que nós dizemos: `somos todos cidadãos`, mas eles sempre se esquecem de perguntar: `de que tipo?´". A fala é do personagem original de Sade. Os Satyros completam, cantando em coro o que a história repete: "Assim o tirano subjuga os súditos". Obra subversiva Seus primeiros escritos já eram assumidamente ateus e libertinos. O "Diálogo entre um padre e um moribundo" subverte o sacramento da extrema-unção, mostrando o moribundo tentando convencer o padre sobre a inexistência de Deus. Já em "Filosofia na Alcova ou os preceptores imorais", Sade investe contra a instituição da família, desconstruindo a idéia da educação e da passagem de valores virtuosos dos pais para os filhos. No livro, a Senhora de Saint-Ange, auxiliada por seu irmão, o Cavaleiro de Mirvel, e pelo jovem Dolmancé, instrui a bela Eugénie nos mistérios do prazer, com lições libertinas e críticas às "mães de família" e sua moral virtuosa. Em "Os 120 dias de Sodoma", Sade promete (e cumpre) "a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe", que narra uma orgia patrocinada por quatro libertinos, que são importantes e figuras públicas, símbolos do Poder, dentre eles um bispo. A orgia possui regras e é dividida em quatro ciclos: das paixões simples, das paixões complexas, das paixões criminosas e das paixões assassinas. O sistema filosófico sadiano Apesar das aproximações filosóficas do Marquês com os iluministas, no manifesto "Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos", em "Filosofia na Alcova", Sade reclama aos iluministas a realização da proclamada liberdade, dando a esta palavra seu significado máximo. Para ele, para realizar a liberdade é preciso acatar o crime como ação individual e desautorizar o Estado a praticá-lo. Esta idéia está relacionada à visão de Sade, de que o homem, sendo um animal, age segundo leis da natureza. Com isso, cabe lembrar, se choca com as poucas regras morais subsistentes, "limitadas e instáveis", que estão acima das classes no cotidiano. Leon Trotsky, ao atacar a burguesia, que tenta impor sua moral às classes oprimidas, afirma que: "Então não existem preceitos morais elementares elaborados pelo desenvolvimento da humanidade e indispensáveis à vida de qualquer coletividade? Existem, sem dúvida, mas sua eficácia é muito incerta e limitada. As normas obrigatórias para todos´ são tanto menos eficazes quanto mais áspera se torna a luta de classes (...)". "(...) O fato dessas normas universalmente válidas serem vazias se deve a que, em todas as circunstâncias importantes, os homens têm um senso comum muito mais imediato e profundo de seu pertencer a uma classe do que pertencer à sociedade´ (...) A solidariedade entre os operários, especialmente nas greves ou atrás das barricadas, é infinitamente mais categórica que a solidariedade humana em geral". Citamos extensamente Trotsky, porque, em seu individualismo delirante, Sade se choca mesmo com as regras morais "limitadas e instáveis" do cotidiano, em defesa da satisfação de instintos animais. Ao justificar os crimes, Sade conclui que a busca individual pela liberdade, pelo prazer, pela satisfação dos desejos, não tem limites. Ao contrário da dialética marxista, o movimento visto pela filosofia sadiana está muito mais no indivíduo e na natureza do que no coletivo das classes. O neoliberalismo, conscientemente, retomou a pregação do individualismo para combater a consciência de classe dos trabalhadores. Nestas últimas décadas, os trabalhadores foram estimulados a buscar saídas individuais, a qualificação profissional, para produzir mais, "vestir a camisa da empresa", para subir na vida. Tudo o que tenha um significado coletivo foi decretado como "fora de moda", "ultrapassado". O leste europeu contribuiu para a difusão do individualismo. O pensamento de Sade foi, durante muitos anos na história simplificado no conceito patológico de sadismo, que provém do nome do Marquês e é definido como "perversão caracterizada pela obtenção de prazer sexual com a humilhação ou o sofrimento físico de outrem". Muitas cenas descritas nas obras de Sade cabem nesta definição simplista. Mas, a filosofia sadiana vai muito além disso. E seria justificado encontrar no neoliberalismo um estímulo "sádico" ao individualismo, mas em defesa das instituições, o que nem o Marquês defendia. |
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