sexta-feira, 27 de Maio de 2011

"No olho da rua" ou a tragédia do neoliberalismo

Cartaz de divulgação

O filme “No olho da rua”, dirigido por Rogério Corrêa, estreou, no dia 13 de maio. Mesmo tendo como protagonista um ator “global” (Murilo Rosa), a estréia ocorreu sem muito alarde e em alguns poucos cinemas. Afinal, são poucos os empresários interessados em oferecer ao grande público um filme que, na essência, descreve como a exploração capitalista e, principalmente, o desemprego podem literalmente destruir um ser humano.

Cabe lembrar, aliás, que por este mesmo motivo o filme, com um custo “mínimo” (em termos cinematográficos) de R$ 1 milhão, teve escassos patrocinadores, o que fez com que o diretor levasse nada menos do que 10 anos para realizar o projeto. Contudo, para todos aqueles preocupados com os rumos da sociedade e como suas contradições podem ser representadas nos meios de comunicação de massa, o filme tem seu grande mérito exatamente no seu tema e na forma como ele foi abordado.

É que isto que possibilita uma reflexão sobre o impacto dos mecanismos econômicos, políticos e ideológicos que têm caracterizado o capitalismo na sua fase neoliberal e que, no Brasil, ganharam força a partir do início dos anos 1990, primeiro com FHC, depois, e com mais intensidade, com o lulismo.

Graças a estes mecanismos, a tragédia vivida pelo personagem Otoniel, (ou Oton, como é chamado pelos amigos), lamentavelmente, ecoa histórias não menos terríveis, mas completamente reais, que podem ser contadas por milhões de trabalhadores que, nas últimas décadas, perderam tudo, ou quase tudo, inclusive sua dignidade juntamente com seus empregos.

A porta do inferno: a reestruturação produtiva
O primeiro longa-metragem de Corrêa (que tem em seu currículo uma importante coleção de curtas) acompanha a derrocada de um metalúrgico (interpretado de forma bastante competente por Murilo Rosa) que, aos 38 anos e depois de trabalhar por 20 deles numa mesma fábrica, é demitido em função da “modernização” e reestruturação impostas pela “parceria” com um grupo japonês.

Morador da periferia, pai de um filho pequeno e com a mulher Camila (Gabriela Flores) grávida de oito meses, Oton, ao perder o emprego, é sugado por um verdadeiro redemoinho de “desgraças” que o arrastam, literalmente, até o fundo do poço.

O desespero que irá levar o personagem a um beco sem saída ganha forma já nas primeiras imagens do filme, nas quais um “close” do rosto transtornado de Oton toma a tela inteira, enquanto ele corre por uma viela, segurando um braço ensangüentado. Apesar de logo sabermos que tudo se trata apenas de um pesadelo, a cena nos remete ao momento decisivo do filme, quando Oton recebe seu aviso de demissão.



O purgatório do desemprego
A cena é central para a história toda. Convocado no RH, Oton reage de forma um tanto inusitada à carta de demissão: decidi assiná-la com o próprio sangue e o faz com um estilete cravado no braço.

A atitude intempestiva e desesperada do metalúrgico (que serve como desculpa para a empresa lhe aplique uma “justa-causa”) é precedida por um discurso, proferido pelo gerente de RH, que é supra-sumo da perversa “lógica” do neoliberalismo.

Antes de demitir o trabalhador com uma frase pra lá de absurda – “você não é um desempregado; está desempregado” – o sujeito desfia um verdadeiro rosário neoliberal: a empresa teve dois anos de prejuízos e como o país se tornou atrativo para o capital estrangeiro e a modernização não só é necessária como vai “salvar” a empresa (o que é um benefício para o “coletivo”), ele deveria entender que sua demissão, na verdade, era motivada por um “bem maior”.

Como todos aqueles que já estiveram desempregados sabem, a situação a partir daí é uma verdadeira bola-de-neve de problemas: o casamento, que já não ia bem, desanda; os aluguéis já atrasados prenunciam o despejo; a auto-estima do trabalhador escoa pelo ralo e o sujeito se reveza a procura infrutífera por emprego e porres homéricos com os amigos.

Um mérito contraditório do filme é exatamente tentar tocar em muitas das consequências do desemprego. Temas que, apesar de relevantes, muitas vezes são tratados ora com um “excesso de didatismo”, ora com superficialidade.

Outras vezes, o filme resvala na superficialidade e nos estereótipos. E não que sejam temas “menores”, como o sempre onipresente machismo que ronda a vida do casal; a frivolidade e futilidade da classe média ou os muitos preconceitos que marginalizam pobres, negros, mulheres e tantos outros oprimidos.

O sindicalismo na sarjeta
Antes de quebrar a cara “no olho da rua”, Oton ainda tem que atravessar a verdadeira “sarjeta” em que se transformaram muitos dos sindicatos brasileiros. Algo que, também, é abordado no filme.

Além de Emiliano (Pascoal da Conceição), um misto de charlatão pentecostal (que promove espetáculos de exorcismo em sua congregação), sindicalista meia-boca e falso moralista, o filme nos brinda com um breve momento que, em vários sentidos, espelha o que se passa no interior das entidades dirigidas pela CUT, Força Sindical e suas ramificações país afora.

Depois de mais de uma dúzia de demissões, ao procurar ajuda no sindicato, Emiliano é recebido por um dirigente, que transpira neo-peleguismo por todos os poros e repete servilmente o discurso da patronal sobre as demissões: o desemprego é estrutural e a melhor coisa a fazer “é preparar os companheiros para as novas formas da organização do trabalho”.

Frase que muita gente já ouviu na boca de gente vinculada às entidades majoritárias do movimento, quando defende, por exemplo, acordos rebaixados, verbas do FAT e outros mecanismos para a promoção de cursos de requalificações e medidas semelhantes.

Neste sentido, diga-se de passagem, chega a ser irônico que o diretor tenha escolhido exatamente a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para fazer o lançamento nacional de seu filme, no início de maio. A única coisa de que pode se pode ter certeza sobre como foi esta sessão é que não devem ter sido poucos os presentes que se reconheceram no filme, já não como o metalúrgico vitimado pelo sistema, mas, sim, como parte daqueles que o empurraram para o abismo.

Irregular, mas necessário
Apesar dos vários “problemas” mencionados “No olho da rua” é um filme que precisa ser visto. E discutido. Não só pelo seu tema, mas também por suas próprias qualidades cinematográficas, que também estão lá (e levaram o filme a ser selecionado para dois importantes festivais mundiais de cinema: o de Montreal, no Canadá, e do “Nuevo Cine Latinoamericano de Havana”, em Cuba).

E mais. Como o próprio diretor admite, seu filme se inspirou e tenta resgatar uma tradição de películas que têm em comum um “olhar” humanista (e por vezes “classista”) sobre a vida dos operários. Ora registrando suas lutas, como “ABC da Greve”; ora os dramas familiares provocados pela exploração e pelo desemprego, como “Ladrões de Bicicleta”; ou ainda mesclando tudo isto, com extrema sensibilidade e clareza política, como em “Eles não usam black-tie”.

O que todos estes filmes têm em comum são o fato de ser “reflexos distorcidos” de sua época, onde sempre é possível achar as marcas deixadas pela realidade e ideologia do momento em que foram produzidos.

Assim, “Ladrões” é uma história de desespero, luta e esperança, quando a Itália estava saindo do pesadelo fascista e da II Guerra; já outra fonte de inspiração do diretor, “A classe operária vai ao Paraíso”, repercute as contradições surgidas nos final dos anos 1960. E da mesma forma como “Black-tie” é emblemático em relação às contradições surgidas no ascenso que levou à derrubada da ditadura, no final dos 1970; “O homem que virou suco” é uma lindíssima metáfora sobre a luta contra opressão sócio-cultural e exploração capitalista.

É neste sentido, que também devemos entender as “irregularidades” de “No olho da rua”. Fruto de uma época marcada pelas traições da Frente Popular e das direções tradicionais do movimento; pelo avanço das práticas neoliberais e pelo impacto do discurso que prega o “fim das ideologias”, o filme “carrega” as marcas de tudo isto.

E apesar de, muitas vezes, titubear em relação a como quer se posicionar diante dessa realidade, ele ainda tem o mérito (e não dos menores) de se colocar na contracorrente e resgatar um operário e seus dramas como protagonista da História.
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