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terça-feira, 29 de Janeiro de 2008 Clube da Esquina: a imaginação no poder
![]() Capa do disco Reprodução Canções que marcaram época não só por suas belas letras, mas também por seus elaboradíssimos arranjos, que mesclavam influências tão distintas como os ritmos tradicionais das comunidades negras mineiras (como o jongo, as toadas e o congo), o cancioneiro latino-americano, a bossa nova, o samba, o rock e o jazz. Tudo isso sob a batuta de uma "molecada" (alguns deles ainda adolescentes, os mais velhos na faixa dos 20 anos) mergulhada na cultura mineira. Jovens músicos, com distintos talentos e formação, como Milton, Beto Guedes, Lô e Márcio Borges, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos, Vermelho, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Paulo Braga e Tavito, que, nos final dos anos 60, formaram um "clube", que apesar de nunca ter existido de fato, tornou-se um dos mais famosos de nossa história cultural. Cavaleiros marginais A história do tal "clube" começou cerca de dez anos antes do lançamento do primeiro disco e o nome surgiu devido à mãe dos irmãos Borges, que quase todas as noites era obrigada a repetir a mesma frase para quem procurasse por seus filhos: "Estão lá na esquina, cantando e tocando violão; estão naquele maldito clube da esquina". A esquina em questão era a da R. Divinópolis com a R. Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte, próxima tanto da casa dos Borges quanto do apartamento para onde Milton Nascimento e o pianista Wagner Tiso haviam se mudado, em 1963, vindo de Três Pontas. ![]() Era lá que os garotos se encontravam e fizeram suas primeiras "apresentações". O palco era a calçada e os espectadores se "sentavam" em "mesas", riscadas com giz no chão, as quais, vale lembrar, eram "vendidas" para os fãs da época. A "bronca" da mãe de Márcio e Lô vinha da má fama que a turma de violeiros e cantores havia ganhado em parte da vizinhança e do fato que, o grupo, não poucas vezes, foi disperso pelas constantes rondas policiais que, nos anos de chumbo, não tinham simpatia alguma por qualquer tipo de agrupamento "suspeito". O que ficou para a História, no entanto, foi o fato de que naquela esquina, em meio a discussões políticas e animadas conversas regadas à cerveja e caipirinhas, brotou, em 1964, a parceria entre Milton e Márcio Borges, letrista das primeiras músicas - "Novena", "Gira, girou" e "Crença" - consagradas na voz do cantor negro, que já fazia certo sucesso nos "bares da vida", em BH. Nessa mesma época, os ainda adolescentes Lô Borges e Beto Guedes montaram a banda "The Beavers", fortemente influenciada pelo som dos Beatles. Nos anos seguintes, a carreira de Milton Nascimento ganhou um forte impulso, fundamentalmente devido seu sucesso nos festivais promovidos pelas emissoras de TV. Em 1966, "Cidade vazia" (de Baden Powell e Lula Freire) ficou em quarto lugar no Festival da Excelsior. Em 67, três de suas músicas foram classificadas no II Festival Internacional da Canção: Travessia (primeira parceria com Fernando Brant), em segundo lugar; Morro Velho, em sétimo e Maria, minha fé, que ficou entre as 15 finalistas. No mesmo período seu talento como compositor foi consagrado quando Elis Regina gravou a belíssima Canção do sal. Sucessos à parte, o "Clube" continuava a crescer, sempre assimilando novas influências. Flávio Venturini entrou com seus arranjos e composições poéticas; Tavinho Moura apresentou ao grupo as canções folclóricas mineiras (que, depois, Milton gravaria no disco Geraes) e o violinista Toninho Horta contribuiu com o "swing" do jazz nas composições do grupo. É importante lembrar que tudo isto estava ocorrendo no mesmo momento em que a ditadura militar recém instalada fechava o cerco sobre os movimentos sociais e atacava ferozmente toda e qualquer forma de liberdade e, por isso mesmo, em muitos sentidos, o "Clube da Esquina" pode ser considerado uma expressão daquilo que estava ocorrendo nas "margens" da sociedade. Primeiro do ponto de vista político. Num momento em que os militares tentavam calar e alienar a sociedade, os jovens mineiros ousaram cantar a liberdade, o prazer de viver, apesar de todos os obstáculos e optaram por abordar, mesmo que metaforicamente, temas políticos e sociais, indo, inclusive, na contracorrente das melosas canções românticas ou da despolitizada onda da "jovem-guarda", que ganhavam espaço na época. Além disso, não é de menor importância que o grupo não só tenha contribuído para romper com o predomínio do "eixo Rio-São Paulo" na produção musical do período, mas também tenha feito uma proeza ainda maior: dobrar uma esquina de BH para cair no mundo. "Sou do mundo, sou Minas Gerais..." Apesar de não estar incluída nos álbuns do "clube", a música Para Lennon e McCartney, composta em 1983, e particularmente seu último verso, em muitos sentidos traduz o espírito dos sons produzidos por aquela garotada. Além de ser uma das mais inspiradas criações dos "beatlemaníacos" irmãos Borges, Milton e Fernand Brant, a música é uma "homenagem-protesto", em que os músicos, em uma espécie de carta a seus ídolos, lembravam: "Porque vocês não sabem / Do lixo ocidental / Não precisam mais temer / Não precisam da solidão / Todo dia é dia de viver...". Uma referência à ainda dramática situação que diferenciava as democracias européias das ditaduras latino-americanas. Esse espírito contestador e rebelde é uma das marcas do primeiro álbum "Clube da Esquina", gravado em 1972. Na capa, dois garotos pobres, na beira de uma estrada, um negro e um branco, dão o tom para o que há nas 21 faixas do disco: uma mescla do que há de melhor em nossa sociedade, uma exaltação à nossa diversidade racial, cultural e musical. E é exatamente isto que dá ao disco um caráter especial. Sua musicalidade é tão "mineira" quanto latino-americana; sua força emana tanto de sua "brasilidade" quanto de sua universalidade. Recheado com preciosidades como O trem azul, Nada será como antes, Cravo e Canela, Um girassol da cor do seu cabelo, Paisagem na janela e Cais, o disco também marcou época pelo aquilo que ele carregava de sentimento latino-americano num momento em povos de vários países se digladiavam contra as nefastas ditaduras que ainda infestavam o continente. Expressões disto são as maravilhosas interpretações do bolero Dos cruces (de Carmelo Larrea Carricarte) e San Vicente (de Milton e Brant). Esse sentido político que, hoje, talvez não possa ser sentido pelas gerações que não viveram naquele período, é ressaltado por um depoimento de Ronaldo Bastos, no site oficial da trupe: "A idéia básica nessa época - principalmente através do Clube da Esquina - era mudar o mundo. Pelo menos nessa época, e eu acredito que seja a idéia básica da juventude, era mudar o mundo. Quer dizer, você começa a sentir que precisava mudar o mundo pela justiça social. Mas você ainda tem um mundo que é cordial e você começa a apostar em algumas idéias, alguns caminhos e, de repente, vem um negócio como a ditadura e fecha. (...) Nem toda música com metáforas - exageradamente metafórica - pra fugir da censura era boa. Mas a gente enxergava dessa maneira. (...) Acho que se você tem um obstáculo como esse, você parte pra cima. A não ser que você desista de viver, não tem outro jeito. Então, quando você tem a ditadura, você tem que também acordar de manhã e dizer: Vamos à luta!´."< |
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