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sexta-feira, 4 de Maio de 2012 Cachoeira de denúncias ameaça governo e aliadosSuborno, fraudes em licitação, financiamento ilegal de campanhas. Na origem, a mesma história: uma empreiteira ou um bicheiro paga a campanha nas eleições, e depois apresenta a fatura
As denúncias também jorraram sobre o PSDB de Goiás. Gravações mostram o bicheiro mandando entregar propina “embrulhada em jornal” ao deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO). Em outra gravação, Cachoeira e um ex-auxiliar do governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, discutem a partilha da verba publicitária do Detran. Na gravação, o bicheiro fala: “Quem lutou e pôs o Marconi lá fomos nós”. Trechos de outras gravações falam em entrega de dinheiro para “o palácio”. ![]() Cachoeira lembra uma regra fundamental da democracia dos ricos. São as grandes empresas que financiaram a campanha dos grandes partidos, muitas vezes com o dinheiro da corrupção. Depois das eleições, cobram a fatura, impondo o que querem e abocanhando lucrativos contratos com o Estado. Eis a fonte dos atuais escândalos de corrupção que assistimos. Esse é jogo de cartas marcadas dos ricos e poderosos. A maior prova deste toma-lá-dá-cá é uma das gravações das conversas de Fernando Cavendish, então presidente da Delta Construtora, onde explica como sua empresa é convidada para as obras: “se eu botar 30 milhões na mão de político, eu sou convidado pra coisa pra c.”. Respingando no PT e seus aliados Nas últimas semanas, porém, pouco a pouco os escândalos se aproximaram do governo do PT e de seus aliados. Gravações da PF mostram a ligação entre Cachoeira e executivos da construtora Delta. O bicheiro utilizaria seus contatos para que a construtora pudesse abocanhar licitações e contratos fraudulentos em troca de financiamento das campanhas eleitorais. No entanto, o envolvimento da construtora pode revelar muitos outros casos de corrupção. A Delta é a sexta maior empreiteira do Brasil e tem contratos importantes com obras do PAC, da Copa e das Olimpíadas. A Delta tem uma presença maciça no Rio de Janeiro. Segundo o jornal O Globo, possui mais de R$ 1 bilhão em contratos com o município e a mesma quantia em contratos somados com o estado do Rio desde 2007. A empreiteira fazia parte do consórcio Transcarioca BRT, responsável pelo corredor Transcarioca, que vai ligar a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, na Ilha do Governador. Também estava presente no consórcio responsável pela obra do Maracanã, orçada em R$ 859 milhões, além da obras do Comperj, em Itaboraí, cujos operários estão em greve. Fernando Cavendish, que deixou a presidência da Delta em função dos escândalos, é velho amigo do governador Sérgio Cabral (PMDB). A viagem de Cabral para um resort no sul da Bahia, em junho de 2011, para a comemoração do aniversário de Cavendish, revelou a intimidade entre os dois. Na ocasião, a queda de um helicóptero matou sete pessoas do grupo de amigos e Cabral tentou abafar a divulgação de sua presença. Outras imagens, divulgadas pelo deputado Garotinho (PR-RJ), mostram Cabral e seu secretariado em jantares em Paris, acompanhados de Cavendish. Resta perguntar: a cachoeira de lama vai chegar em Cabral e em Eduardo Paes, aliados do governo federal? Financiamentos de campanha A construtora Delta também é uma das maiores financiadoras de campanhas políticas no país. Sua trajetória começou em 2002, quando doou cerca de R$ 40 mil em campanhas eleitorais do extinto PL, partido do ex-vice presidente José Alencar. Naquele ano a Delta gastou pouco mais de R$ 60 mil em campanhas eleitorais. No entanto, oito depois a empreiteira gastaria mais de R$ 2,3 milhões “doados” aos grandes partidos. Só para o PT, em 2010, a empreiteira repassou R$ 1,15 milhão. Obviamente que os contratos com o Estado também explodiram e a Delta se tornou a maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). De acordo com levantamento do jornal Folha de S. Paulo, entre 2003 e 2011, os recursos federais recebidos pela empresa cresceram mais de 2.000%. Outros R$ 1,15 milhões foram doados ao PMDB, segundo a prestação de contas oficiais. Mas a Polícia Federal investiga se a construtora não chegou a repassar muito mais, por meio de empresas fantasmas e laranjas. Governo tenta controlar CPI As denúncias forçaram o Congresso a criar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos e empresas. No entanto, esta é uma CPI para dar em nada, montada para manter as aparências e evitar que as denúncias fujam do controle. Por isso, na composição da CPI, ao menos 75% dos titulares são aliados do governo. Tanto o governo quanto a oposição de direita não tem interesse em que a CPI aponte culpados. A situação é tão absurda que a comissão terá, entre seus membros, figuras do folclore da corrupção, como o senador Fernando Collor (PTB-AL), o que teria provocado risos do próprio Cachoeira. Suborno, fraudes em licitação, financiamento ilegal de campanhas. A lista de crimes a serem investigados é interminável. Na origem, a mesma história: uma empreiteira ou um bicheiro pagam a campanha nas eleições e depois apresentam a fatura. Agora, governo e a oposição querem controlar as investigações e impedir que o tsunami de denúncias venha à tona. O Congresso Nacional não tem moral para investigar e julgar as denúncias de corrupção. A imensa maioria dos deputados e senadores tem o rabo preso com a corrupção. Como a história recente do país já mostrou, só a mobilização permanente da juventude e dos trabalhadores pode combater a impunidade. Só nas ruas é possível conquistar a prisão de Demóstenes e de corruptos e corruptores, além do confisco de seus bens. |
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